Os dois coleiros

Um dia numa gaiola
Foi um coleiro trancado
E por humano capricho
Viu-se assim escravizado.
 
Chorando dizia o triste:
“Maldita, maldita sorte!
Em lugar da escravidão
Antes me desses a morte!”

Um outro coleiro, livre
De ramo em ramo saltando,
Ouvindo queixumes tais,
Ia sonoro cantando:
 
“Tenho o ar, flores e frutos,
Ameno campo divino,
Amores e liberdade,
Eu bendigo o meu destino.”

Eis que num dia dois homens
(Que diversa inclinação)
Um abria uma gaiola,
Outro armava um alçapão.

Ligeiro sai da gaiola
Pobre, escravo passarinho;
No traiçoeiro alçapão
Cai o livre coleirinho;

Que as sortes foram mudadas
Não é preciso dizer:
Se o que gemia hoje canta,
A quem compete gemer?
 
Quando a ventura sorri-nos,
É justo viver contente;
Porém respeitando as dores
Do que vive descontente.

Assim também, quando a sorte
Não nos quer favorecer,
Chorando nunca devemos
As esperanças perder.

Nesta Vida transitória
Lembrar este dito cabe:
“Não há bem que sempre dure
Nem mal que não se acabe..”
 
(Anastácio Luiz de Bonsucesso, Seleta, p.227)

Esse texto da Seleta em Prosa e Verso de Alfredo Clemente Pinto, era um dos tantos que durante a minha adolescência escutei nas rodas de conversa da minha família. 

Durante a graduação este livro foi o instrumento usado pela minha querida professora e amiga e descobrir a minha capacidade. 

Por isso nada melhor do que começar o blog Construindo Identidade com esse poema que de certa forma reflete a minha trajetória. Graças à Deus porque os Seus planos são maiores do que os nossos!



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